Mercado de Crédito – Uma crítica à sua expansão.

Mercado de Crédito – Uma crítica à sua expansão.

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Recentemente fui convidado a elaborar uma crítica sobre um trabalho que um amigo meu estava produzindo acerca da expansão creditícia bancária com reserva fracionada.

O trabalho ficou bastante legal, assim como a crítica que venho compartilhar com vocês. Sendo assim, deixo abaixo meu texto contestando alguns pontos da expansão creditícia com reservas de 100% de caixa dos bancos:

Critica acerca da expansão de crédito por meio das reservas fracionárias

Muito se fala de que um sistema expansivo de crédito é prejudicial aos mercados, uma vez que estes desestabilizam o curso natural de um crescimento econômico, o qual se consiste na poupança voluntária dos agentes superavitários (e com preferencia temporal menor) repassada aos agentes que aplicam o capital tomado em empréstimos na produção de bens e serviços.

Diz-se que, quando não há a condição tantundem (cobertura de 100% de capital frente a empréstimos), os bancos tendem a especular com dinheiro alheio além de sua capacidade, e que em momentos de estresse e corridas de saques aos bancos, estes que não realizaram a adequada provisão de empréstimos a terceiros terão a falência como destino certo.

Além da reserva fracionária sobre empréstimos, um emprestador de última instância tende a relaxar o controle dos bancos acerca do dinheiro emprestado e consequentemente na quantidade de moeda criada pela expansão. Sendo assim, a teoria liberalista afirma que a melhor maneira de se evitar um boom expansionista é tendo como provisão de empréstimos o percentual de 100% dos empréstimos concedidos e freando a multiplicação bancária.

Eu, mesmo sendo um assíduo libertário, discordo de alguns pontos que são defendidos por alguns desta escola, principalmente no que tange a expansão de crédito. Seguem pontos abaixo:

A expansão de crédito com reservas fracionárias é benéfica, desde que prudente:

Sim, eu estou ciente de que a linha libertária defende que não há prudência dos banqueiros quando se trata de expansões por meio de reservas fracionárias e que estes tendem a utilizar o mínimo possível de reservas objetivando o lucro máximo. No entanto, devemos observar que não estou me utilizando da prudência dos agentes individuais e sim de um acordo ou regra que instrua os bancos do modo que devem realizar tais reservas.

Longe de ter o Estado como o regulador do sistema bancário, me refiro a um conselho criado pelos próprios bancos aonde sejam estudados os mais diversos cenários para criar aderência às diversas condições de expansão de crédito. Sou a favor de um comitê no qual determine as diferentes porcentagens de reservas que satisfariam os diferentes tipos de produtos bancários tendo assim mais um guia, do que uma legislação sobre o assunto.

Este comitê poderia ser composto por membros independentes e não atuantes nos bancos, para que assim sejam minimizados os riscos de conflitos de interesses. Tais comitês seriam responsáveis por analisar o mercado macro e micro a fim de ter uma sólida base teórica para fundamentar regras de livre adoção por parte dos bancos. No entanto, os bancos que decidissem por adotar as melhores práticas, teriam um selo de qualidade por parte do comitê e passariam ao mercado uma situação mais confortável e de maior confiança. Aos demais que preferissem a não adoção das práticas recomendadas, restariam os clientes que aceitassem um maior risco implicado em suas operações.

Todos os depósitos devem ficar com um percentual de 100% disponível para saque?

Acredito que não. Hoje no mercado existem diversos tipos de produtos bancários com diversas finalidades para atender a demanda de pessoas físicas e empresas. Ora, se pensarmos que todo este dinheiro deveria estar represado sob a administração do banco a espera do saque, teríamos um sistema bancário inerte.

Um banco tem a finalidade de ser um intermediário financeiro entre agentes superavitários e deficitários que queiram realizar negócios. Antes quando a troca era pessoal e envolvia a confiança de ambas as partes envolvidas, o processo era imensamente mais arriscado e custoso. Hoje com um sistema bancário desenvolvido temos o direcionamento de diferentes tipos de produtos para diferentes necessidades dos agentes superavitários, balanceando o tripé Rentabilidade, Risco e Liquidez, como, por exemplo, poupanças de longo prazo para agentes com uma preferencia temporal menor, do mesmo modo que este tipo de investimento é direcionado a financiamento imobiliário, que equalizam ambos os períodos no longo prazo.

Expansões de crédito reduzem custos, como uma fábrica.

Se adotarmos uma reserva de 100% do capital emprestado a terceiros por um banco, temos que levar em conta que este processo seria deveras custoso se pensarmos que o banco deveria ter toda uma estrutura para uma simples custódia monetária.

Porém, se o banco tem a permissão de expandir a oferta monetária este poderia não só baratear os custos envolvidos nos empréstimos a terceiros (agentes deficitários), como também poderiam atrelar alguma rentabilidade aos agentes superavitários que seriam recompensados por abrir mão do consumo imediato do capital prolongando seu uso. Desta forma, estaríamos saciando a necessidade de empréstimo de um agente deficitário enquanto estaríamos recompensando um agente superavitário.

A promessa de pagamento de uma rentabilidade futura com toda certeza atrairia diversos investidores dispostos a abrir mão do consumo imediato de seu capital. Adjunto à essa rentabilidade um contrato de período pré-estabelecido deixaria o investidor sem liquidez até a data acordada e permitiria que o banco trabalhasse por esse período de tempo com o dinheiro tomado a fim de rentabilizar o montante repassando-o à terceiros. Com a evolução do sistema de empréstimos e a otimização da engenharia financeira do banco, teríamos uma redução gradual de custos com a possibilidade de aumento de rentabilidade para o investidor de longo prazo.

Expansões ajudam a desenvolver economias. A destruir também.

É sabido que expansões sem controle tendem a inflacionar preços, criar bolhas, fomentar booms dentre outros problemas em uma economia. Todas as últimas grandes crises foram iniciadas com a intervenção governamental em algum aspecto que gerou uma reação em cadeia e veio por fim a desestabilizar os mercados financeiros.

A pergunta então é “Há expansões controladas?”. Sim e não. Em suma, a maioria das expansões foram inicialmente planejadas para atingir algum objetivo e tiveram seus alicerces construídos na teoria, porém, na prática os governos tendem a perder o controle de sua estratégia e iniciam um ciclo de fomentação à expansão que, todos sabemos, leva a uma crise expansionista. O que podemos é em um próximo plano expansivo criar travas de desligamentos (poison pills) de expansões creditícias atentando para os bons ensinamentos da escola libertária, como:

  • A não intervenção estatal com fins auto benéficos.
  • A não criação de um emprestador de última instância
  • O não paternalismo a determinados grupos

Com algumas regras simples podemos, ao menos tentar, uma expansão creditória “controlada” nos melhores moldes libertários com o objetivo real de criação de valor à sociedade sem que sejam preservados os direitos individuais.

A conversão de reservas de ouro seria viável?

A meu ver, não. Além de custosa a transição para o modelo de reserva de ouro para a concessão de empréstimos, o sistema estaria preso à escassez do referido metal. Sim, a escassez talvez tornasse os empréstimos muito mais prudentes, no entanto, minaria a capacidade de expansão de startups, por exemplo. Se o recurso é escasso e valioso, os bancos tomariam o cuidado de emprestar sua capacidade financeira (lastreada em ouro) somente em projetos com uma alta probabilidade de retorno. Seria arriscado demais e custoso demais ao banco emprestar dinheiro a uma empresa com fluxo de caixa incerto, ou um projeto inovador, porém ainda no papel. Sendo assim, poderíamos diminuir veemente o avanço tecnológico que adveio do investimento em empresas com bons projetos, mas ainda assim, apenas projetos.

Além do mais, a extração do ouro ficaria nas mãos das mineradoras que, se quisessem, poderiam formar um cartel (vide OPEP) para controlar a produção e consequentemente a cotação do preço do metal. Também devemos observar que o preço do metal seria elevado imediatamente, uma vez que este seria oferecido ao mercado somando-se o custo de extração mais a cotação diária do ouro, elevando assim o lucro das mineradoras a um patamar inimaginável.

Então é isso… essa foi a minha contribuição analítica acerca do mercado de crédito.

Se gostou não deixe de compartilhar com os amigos! Até a próxima!

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Graduado em Ciências Contábeis, possui MBA em Investment Banking e está agora iniciando seu mestrado em economia. Atualmente trabalha no mercado financeiro e escreve os blogs com o objetivo de ajudar as pessoas a conhecerem um pouco mais acerca do mundo econômico, contábil e administrativo e sobre tudo o que isto implica.

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